O poder do canabidiol no controle da epilepsia

As propriedades medicinais da Cannabis sativa têm sido amplamente utilizadas desde a antiguidade, mas foi no século 19 que a planta foi usada pela primeira vez para o tratamento da epilepsia. De lá para cá, muita coisa mudou, mas o poder da cannabis medicinal só aumentou, especialmente quando se trata do controle de formas graves da doença resistentes a medicamentos convencionais. Embarque conosco neste artigo para saber mais sobre o uso do canabidiol no controle da epilepsia refratária.

A epilepsia e a resistência a tratamentos

Doença neurológica crônica, geralmente progressiva, a epilepsia caracteriza-se por crises convulsivas ocasionadas por alterações nas descargas neuronais, gerando alterações cognitivas de acordo com a frequência e gravidade das convulsões. Quanto mais repetitivas e intensas essas convulsões, mais grave o prognóstico do paciente.

Embora o arsenal farmacológico contra a doença tenha sido incrementado nas últimas décadas, com o lançamento de algumas dezenas de anticonvulsivantes, um terço dos pacientes não respondem aos medicamentos, compondo o grupo da intitulada epilepsia refratária ou farmacorresistente, comumente observada nas Síndromes de Dravet, Doose e Lennox-Gastaut.

Além disso, muitos pacientes relatam significativos eventos adversos de seus tratamentos – que, às vezes, são considerados ainda piores do que os próprios ataques convulsivos. Tudo isso gera grande impacto tanto na funcionalidade quanto na qualidade de vida cognitiva e comportamental do paciente.

É nesse cenário que entra o canabidiol (CBD), um composto não psicoativo extraído da Cannabis. Com mecanismos de ação distintos dos fármacos atuais e efeitos secundários menores, o canabinoide representa uma alternativa promissora para pacientes epilépticos refratários aos tratamentos convencionais, uma vez que ele pode modificar a história natural da doença, evitando a ocorrência de danos cerebrais.

Ação antiepiléptica do canabidiol

Os mecanismos pelos quais o canabidiol exerce seus efeitos antiepilépticos ainda não são totalmente conhecidos. No entanto, sabe-se que o composto derivado da cannabis medicinal exerce influência direta no Sistema Nervoso Central (SNC), agindo em diversos sistemas neuronais e no sistema endocanabinoide (GABA, serotonina, glutamato, entre outros), atuando como modulador da transmissão neurológica.

Dessa forma, podemos dizer que é possível que o canabidiol atue modulando a transmissão sináptica por bloqueio dos canais de cálcio e potássio dependentes de voltagem. Assim, o canabinoide reduz a excitabilidade neuronal, evitando a superexcitação das transmissões neuronais e, consequentemente, inibindo as crises epiléticas e convulsões.

Estudos científicos promissores

Nos últimos anos, a comunidade científica dedicou-se a uma série de ensaios clínicos para avaliar os efeitos anticonvulsivantes do canabidiol, bem como determinar a segurança e a eficácia na utilização do composto no tratamento da epilepsia.

O primeiro ensaio clínico em grande escala com o composto se concentrou em 120 crianças e jovens adultos com síndrome de Dravet, uma forma rara da epilepsia. Conduzido por Orrin Devinsky e publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2017, o estudo registrou redução de 40% na frequência de convulsões ao longo de 14 semanas de tratamento. Em um segundo momento, o ensaio foi estendido para 264 pacientes e mostrou que 85% deles apresentaram melhora no estado geral após 48 semanas de tratamento.

Em 2018, o estudo de Szaflarski e colaboradores apontou redução da intensidade e frequência das convulsões em 607 pacientes epilépticos tratados com canabidiol e acompanhados por 96 semanas. A adição de CBD reduziu as convulsões convulsivas mensais médias em 51% e as convulsões totais em 48% em 12 semanas; reduções foram semelhantes por 96 semanas. A proporção de pacientes com ≥50%, ≥75% e reduções de 100% nas convulsões em 12 semanas foram de 52%, 31% e 11%, respectivamente, com taxas semelhantes ao longo de 96 semanas.

Esses e outros estudos comprovam que a benéfica ação terapêutica do canabidiol, que gera menor incidência de crises convulsivas e traz mais conforto aos pacientes epiléticos. Eles também revelam que sua utilização, mesmo que por tempo prolongado, não manifesta relevantes efeitos adversos e tóxicos, não produz tolerância, nem qualquer sinal de dependência.

O canabidiol no Brasil

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso medicinal do canabidiol por importação para casos específicos, porém, exigindo-se prescrição, laudos médicos e termo de responsabilidade. Apesar do composto ainda não ter registro na agência reguladora, seu uso pode ser liberado por meio do chamado uso compassivo, caracterizado pela prescrição de uma substância destinada a pacientes com doenças graves e sem alternativa de tratamento com produtos já registrados.

A Resolução nº 2.113, de 30 de Outubro de 2014, regulamenta o uso compassivo do
CBD como terapêutica médica, restrita ao tratamento de epilepsias na infância e
adolescência refratárias às terapias convencionais. Porém, a prescrição compassiva limita-se aos profissionais especializados em neurologia, neurocirurgia e psiquiatria devendo estes ser previamente cadastrados no Conselho Regional de Medicina (CRM) e Conselho Federal de Medicina (CFM).

Para desfrutar do benefício, os pacientes ou responsáveis devem seguir uma série de critérios e procedimentos para solicitar a importação da cannabis medicinal à Anvisa e receber a aprovação. Além disso, eles deverão ser cadastrados no Sistema CRM/CFM para a realização do monitoramento da segurança e dos efeitos adversos.

O uso da cannabis medicinal, especialmente do canabidiol, no tratamento de epilepsia está avançando a passos largos. Mais estudos estão sendo conduzidos a cada ano para elucidar ainda mais os seus mecanismos de ação e sua segurança. A VerdeMed nasceu com o propósito de facilitar e impulsionar o acesso à essa terapia que tem proporcionados ganhos significativos na vida de milhares de pessoas.

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Links para os estudos:

Devinsky, Orrin; Cross, J. Helen; Laux, Linda; Marsh, Eric; Miller, Ian; Nabbout, Rima; Scheffer, Ingrid E .; Thiele, Elizabeth A .; Wright, Stephen. (2017) Ensaio de canabidiol para convulsões resistentes a drogas na síndrome de Dravet, New England Journal of Medicine; 376 (21): 2011;

Devinsky, O , Nabbout, R , Miller, I , et al. Tratamento a longo prazo com canabidiol em pacientes com síndrome de Dravet: Um estudo de extensão de rótulo aberto . Epilepsia . 2019 ; 60 : 294 – 302

Szaflarski, J. P., Bebin, E. M., Comi, A. M., Patel, A. D., Joshi, C., Checkets, D., Beal, … Wechsle, R. (2018). Segurança a longo prazo e efeitos do tratamento do canabidiol em crianças e adultos com epilepsias resistentes ao tratamento: resultados do programa de acesso expandido, Epilepsia, 59, 1540-1548. doi: 10.1111/epi.14477